domingo, 22 de outubro de 2017

Aspectos econômicos da cultura do cajueiro


Histórico

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma planta nativa do nordeste Brasileiro com considerável capacidade adaptativa a solos de baixa fertilidade, a temperaturas elevadas e ao estresse hídrico. Devido a essas características, o cajueiro se tornou uma importante fonte de renda para os estados do Nordeste, principalmente para aqueles que possuem regiões semiáridas. Ademais, por produzir em pleno período seco, na entressafra das culturas anuais, o cajueiro se torna importante para a geração de empregos tanto no campo quanto nas indústrias.
Os primeiros modelos de exploração do cajueiro foram o extrativista e o plantio desorganizado nas propriedades. O extrativismo foi o processo exclusivo de exploração do cajueiro por volta do ano de 1600, apesar de ainda ocorrer nos dias atuais, mas em escala cada vez mais reduzida. O plantio desorganizado era realizado em pomares domésticos e iniciou-se com a crescente valorização dos produtos do cajueiro comercializados pelos colonizadores. Nesse tipo de exploração, também se deu o início dos primeiros tratos culturais, destacando-se a realização esporádica de roçadas em volta das plantas e de podas de limpeza. Esse tipo de exploração disseminou-se em todo o Nordeste, partindo do litoral e penetrando Sertão adentro (LIMA, 1988).
A partir da 2ª Guerra Mundial, surgiu, em 1943, um grande interesse industrial pelo cajueiro devido ao líquido da casca da castanha-de-caju (LCC). Com o fim da guerra, o interesse econômico passou a ser a amêndoa da castanha-de-caju (ACC), iniciando, assim, um crescimento significativo da agroindústria de caju. Na década de 1950, devido à crescente demanda de ACC, deu-se início aos primeiros plantios organizados de cajueiro no Nordeste, mais precisamente no Ceará. Em 1957, o governo do estado promoveu a primeira grande campanha para o plantio de cajueiros, tendo como meta a obtenção de um milhão de cajueiros plantados. A partir de 1968, com a aplicação dos incentivos fiscais do antigo Fundo de Investimentos do Nordeste (FINOR - art. 34/18), para projetos agrícolas, iniciou-se uma nova fase de grandes plantios, concentrados principalmente no Ceará e, em menor escala, Piauí e Rio Grande do Norte (LIMA, 1988). Todas essas grandes plantações comerciais tinham o objetivo de abastecer as primeiras indústrias processadoras de castanha (extração das amêndoas) e as novas indústrias de suco.
A partir de 1983 (Decreto 88.207, de 30/03/1983), o cajueiro também foi incluído nos programas prioritários da política florestal do Governo Federal na região nordestina (LIMA, 1988). Desse modo, em 1986, já existiam cerca de 340 mil hectares de cultura, dos quais 75% localizavam-se nos estados do Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Paralelamente, também se iniciaram os plantios organizados nas pequenas e médias propriedades, incentivados pelos órgãos públicos estaduais, o que ocorre até os dias atuais nos principais estados produtores.
Devido às várias políticas de incentivo de plantio, tem-se, até os dias atuais, uma expressiva área com cajueiros. Em se tratando de espécies frutíferas no Brasil, essa área só perde para aquela plantada com laranjeiras (IBGE, 2014).
Atualmente, a grande maioria dos pomares explorados racionalmente (cerca de 95%) está localizada em pequenas e médias propriedades (<100 assentamentos="" associa="" comunidades="" em="" es="" grandes="" ha="" isolados="" o="" ou="" pequenas="" planta="" por="" produtores="" representado="" restante="" rurais.="">100 ha), as mesmas das décadas de 1960 e 1980 com cajueiros-comuns de pé-franco, com altas taxas de heterogeneidade entre as plantas e de falhas nos estandes, fato que, aliado à idade elevada, resulta quase sempre em baixa produtividade.

Produtos

Do cajueiro aproveita-se praticamente tudo. O principal produto é a amêndoa da castanha-de-caju (ACC), localizada no interior da castanha, de onde também é extraída a película que reveste a amêndoa, rica em tanino e utilizada na indústria química de tintas e vernizes. Da casca da castanha, extrai-se o líquido da casca de castanha-de-caju (LCC), usado na indústria química e de lubrificantes, curtidores, aditivos, entre outros, sendo o resíduo da casca utilizado como fonte de energia nas indústrias, por meio de sua queima em fornalhas. Já o pedúnculo do caju (pseudofruto) é processado por indústrias ou minifábricas para a obtenção do suco ou da polpa congelada, a ser utilizada na fabricação de sucos, cajuínas e outras bebidas. O pedúnculo também pode ser aproveitado para a fabricação de diversos produtos (principalmente doces) e na alimentação animal, além de que o caju inteiro também é comercializado in natura em feiras e supermercados. Outras partes da planta também são utilizadas, pois os restolhos dos galhos podados, as cascas das árvores e as folhas, por serem fontes de tanino e goma, são aproveitadas na indústria química e na geração de energia (queima).

Aspectos da produção nacional

De acordo com os dados atualizados do IBGE (2015), Conab (2015) e Secex (2014), serão apresentados alguns dados relacionados à cadeia produtiva de caju no Brasil.
A cultura do cajueiro é explorada por aproximadamente 195 mil produtores, sendo que cerca de 75% deles são pequenos produtores, com áreas inferiores a 20 hectares. Na cadeia produtiva do caju, estima-se a geração anual de cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos, cuja importância é ainda maior devido à época de maior demanda de mão de obra (colheita) coincidir com a entressafra das culturas anuais de subsistência. Na região produtora de caju no Nordeste brasileiro, encontram-se grandes fábricas e dezenas de minifábricas processadoras de castanha, cuja capacidade atual de beneficiamento gira em torno de 300 mil toneladas de castanhas. Destacam-se também as fábricas e minifábricas processadoras de suco, e as minifábricas de cajuína e doces.
Nos últimos anos, o Ceará vem representando quase 50% do total de castanha-de-caju produzida no Brasil, sendo seguido pelos estados do Rio Grande do Norte (≈22%) e Piauí (≈18%), os quais juntos representam cerca de 90% do total produzido. Os estados da Bahia, Maranhão e Pernambuco complementam quase a totalidade do restante. Quanto aos municípios, em 2013, os maiores produtores de castanha-de-caju foram Beberibe, CE, Macaíba, RN e Cascavel, CE; enquanto os maiores em área colhida foram Beberibe, CE, Serra do Mel, RN, Bela Cruz, CE, Pio IX, PI e Cascavel, CE.
Entre os anos de 1990 e 2012, a área destinada à cajucultura no Brasil passou de 582 mil hectares para 756 mil hectares (Figura 1), um acréscimo de 30%. No entanto, nota-se que, no período entre 2006 a 2012, esse crescimento foi de apenas 6,5%, e, entre 2013 e 2015, constata-se uma redução na área colhida, a qual ficou em torno de 586 mil ha. Essa queda observada na área colhida de caju no Brasil tem forte influência dos elevados índices de mortalidade de plantas na cajucultura localizada na região semiárida do Nordeste e pelo déficit hídrico (precipitações abaixo das médias históricas) entre 2012 e 2015.

Figura 1. Evolução da área com cajueiros colhida no Brasil, período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).
Ressalta-se que, apesar da queda na área colhida nos últimos anos, houve um aumento na diferença entre área colhida e área plantada, indicando uma possível reforma dos pomares na região, pois, só em 2013, a quantidade de área plantada superou em 34 mil hectares a de área colhida. Como exemplo, temos o Estado do Ceará, que desde 2008 vem apresentando um aumento da área cultivada com cajueiro-anão (também conhecido como cajueiro-anão-precoce) e uma redução da área com cajueiro-comum, sinalizando essa possível substituição dos pomares antigos por pomares novos de cajueiros clonais. Em 1990, as áreas com cajueiro-comum no Ceará representavam mais de 98% da área cultivada, enquanto, em 2012, a distribuição ficou de 82% para cajueiro-comum e 18% para cajueiro-anão. Ano após ano, essa substituição de áreas com cajueiros-comuns por cajueiros-anões também vem sendo observada nos estados do Rio Grande do Norte e Piauí.
Em relação à produção de castanha-de-caju, no período entre 1990 e 2011, a produção passou de 107.664 toneladas para 230.785 toneladas (Figura 2), um acréscimo de 114%. Entretanto, a quantidade produzida apresenta um comportamento cíclico, pois, nos anos de 1993, 1998, 2010, 2012 e 2013, a produção foi menor do que a registrada em 1990. Esse tipo de comportamento da produção de castanha-de-caju parece estar diretamente associado com os dados pluviométricos ocorridos na estação chuvosa (janeiro a maio) do ano em questão; contudo, a idade das plantas e o material genético (tipo de cajueiro) certamente estão envolvidos com o grau de sensibilidade ao estresse hídrico. Nos últimos anos, as precipitações foram consideradas normais nos anos de 2008, 2009 e 2011, os quais propiciaram produções acima de 200 mil toneladas, e o inverso foi verificado nos anos de baixa precipitação, 2010 e 2012.

Figura 2. Evolução da quantidade de castanha-de-caju produzida no Brasil, período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).

No geral, a produtividade dos cajueirais segue a mesma tendência da produção, um comportamento cíclico. Em 1990, foi registrada uma produtividade média de 184 kg ha-1 de castanhas e, em 2011, de 301 kg ha-1 (Figura 3), um acréscimo de 63%. No entanto, em 2010, 2012 e 2014, as produtividades foram de 137 kg ha-1, 101 kg ha-1 e 172 kg ha-1 de castanhas, ambas inferiores à obtida em 1990.
Outro fato relevante, observado no Estado do Ceará, é que, nas mesmas condições edafoclimáticas, entre 2008 e 2013, a produtividade média do cajueiro-anão superou de 2 a 3 vezes à de cajueiro-comum, fato que fez a participação do cajueiro-anão saltar, nesse período, de 19% para 41% em relação ao total de castanhas produzidas.

Figura 3. Evolução das produtividades de castanha-de-caju no Brasil e nos principais estados produtores,  período de 1990 a 2015*. (Estimativa). (Dados: IBGE, 2015).

Comercialização

A maioria dos pequenos produtores comercializa suas safras (pedúnculo e castanha) com compradores intermediários (conhecidos como “atravessadores”), que, ao apresentarem maiores volumes, realizam a comercialização com as indústrias. Nesse tipo de comercialização, o atravessador representa determinada importância por estar sempre próximo ao produtor, diminuindo os riscos da não comercialização, mas, por outro lado, o produtor recebe um valor menor pelo produto. Por meio de associações e cooperativas, devido ao aumento do volume de produto a ser comercializado, os pequenos produtores podem aumentar seus ganhos com a cultura, principalmente por conseguir vender a sua mercadoria diretamente com o comprador final (indústrias ou minifábricas).
Na Figura 4, é apresentada a evolução dos preços pagos aos produtores nos últimos meses. Esses valores são aqueles pagos in loco pelo quilograma da castanha-de-caju. Observa-se que, devido às quedas de produção ocorridas entre 2011 e 2014, houve evolução no preço pago pelas castanhas.

Figura 4. Preço médio do quilograma de castanha-de-caju pago ao produtor rural. (Dados: Conab, 2015).

As épocas de comercialização apresentam pequenas variações entre os estados produtores. No Ceará, a colheita e a comercialização do caju se concentram nos meses de outubro e novembro; no Piauí, em setembro e outubro, e, no Rio Grande do Norte, entre setembro e novembro. O Piauí, geralmente, é considerado o estado que inicia a colheita do caju na região.
Considerando a produtividade média brasileira de castanha-de-caju, os preços atuais pagos pelo quilograma de castanha e a elevação do custo de produção, sobretudo da mão de obra, tem-se uma situação em que a rentabilidade oferecida pela cultura não induz a realização de investimentos significativos na manutenção e expansão dos pomares. Estudos técnicos direcionam a resolução desse problema para o melhor aproveitamento do pedúnculo, que, na atualidade, ainda é muito baixo. Ainda hoje, apesar de toda a tecnologia disponível, 75% dos pedúnculos do caju não são aproveitados. Estima-se que apenas 350 mil toneladas de pedúnculos são absorvidas por pequenas empresas que produzem suco de caju, cajuína e doces.
Estudos da Embrapa concluíram que a viabilidade econômica da exploração comercial do cajueiro está ligada à necessidade de intensificar o cultivo de genótipos com carga genética superior (clones), visando à produção e ao aproveitamento tanto da castanha como do pedúnculo (PAULA PESSOA et al., 2000).
Nas microrregiões nordestinas, próximas às fábricas de sucos e cajuínas, constata-se um elevado aproveitamento do pedúnculo quando provenientes dos clones de cajueiro-anão. Nas últimas safras, os preços pagos pela caixa de 20 kg de pedúnculos com ou sem castanha chegaram a até R$40,00, fato que, segundo observações in loco, vem incentivando os produtores a renovarem seus pomares com os clones de cajueiro-anão.
Quanto ao mercado de caju in natura, os principais dados são da Ceagesp. Entre 2009 e 2012, foram comercializados, em média, cerca de 1.250 toneladas anuais de caju in natura, sendo que os preços subiram de R$ 3,83 kg-1, em 2009, para R$ 7,61 kg-1, em 2012, com tendência de alta em 2013. A época de maior oferta ocorre nos meses coincidentes com a safra no Nordeste, entre setembro e novembro, e os melhores preços ocorrem entre abril e maio, época dos primeiros frutos temporãos (Figura 5).

Figura 5. Médias dos volumes (toneladas x 10) e preços (R$ kg-1) do caju in natura comercializado pelo Ceagesp, entre 2009 e 2013.
Fonte: Agrianual, 2014.

Cenário internacional em produção e comercialização

A comercialização internacional de castanha-de-caju tornou-se mais expressiva após a 2ª Guerra Mundial, destacando-se a Índia como o maior produtor mundial, que, em 1965, já produzia acima de 100 mil toneladas de castanhas por ano. Nessa mesma época, também se destacavam Moçambique e Tanzânia.
A partir dos grandes plantios realizados nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, o País produziu, em 1985, cerca de 115 mil toneladas de castanha-de-caju (PAULA PESSOA et al., 1991), enquanto a Índia, maior produtora mundial, produziu 221 mil toneladas. Na África, em função de guerras civis, Moçambique produziu pouco mais de 10 mil toneladas, sendo ultrapassado pela Nigéria e Tanzânia com 32.750 e 25.000 toneladas, respectivamente. Durante toda a década de 1980 até a metade da década de 1990, o Brasil se manteve como o segundo maior produtor mundial de castanha-de-caju, dominando o mercado internacional juntamente com a Índia.
A partir de 1995, entraram no mercado internacional de forma competitiva o Vietnã, a Indonésia e a Costa do Marfim. Do mesmo modo, ocorreu uma eficiente expansão da cajucultura na Nigéria. A Índia, por sua vez, já superava a marca de 320 mil toneladas produzidas anualmente.
No ano 2000, o Brasil ocupava o posto de terceiro maior produtor mundial de castanha-de-caju, ficando atrás da Índia (440 mil toneladas) e Nigéria (176 mil toneladas).
Segundo os dados da FAO (2014), nas safras de 2011 e 2012, as produções mundiais de castanha-de-caju foram de 4,40 milhões e 4,15 milhões de toneladas, respectivamente. Vietnã (28,7% da produção), Nigéria (20%), Índia (16%) e Costa do Marfim (10%) se consolidaram como os maiores produtores mundiais. O Brasil, com sua produção cíclica, foi o quinto maior produtor em 2011 e o décimo maior em 2012. Considerando os mais importantes produtores, essa grande variação entre as safras ocorre somente no Brasil, sendo de 65% a diferença entre 2011 e 2012, enquanto, no Vietnã, Nigéria e Índia, essa variação não ultrapassou 4%. Outro fato importante é que as produtividades médias mundiais em 2011 e 2012 foram de 805 kg ha-1e 781 kg ha-1, valores bem superiores às médias brasileiras de 300 kg ha-1 e 106 kg ha-1.
Quanto à exportação brasileira de castanha-de-caju, temos como principais compradores os Estados Unidos, os Países Baixos e o Canadá. De 2010 a 2013, os Estados Unidos compraram 53% do total exportado; no entanto, houve uma redução de aproximadamente 40% na quantidade adquirida.
Para o Estado do Ceará (maior exportador), as exportações de castanha-de-caju renderam, em 2010, 2011, 2012 e 2013, respectivamente, US$ 182 milhões, US$ 176 milhões, US$ 149 milhões e US$ 110 milhões, passando de primeiro para o terceiro produto da pauta de exportações. Já o mercado do LCC, nesse mesmo período, rendeu uma média de US$ 10 milhões anuais.
No Rio Grande do Norte, a castanha-de-caju é consolidada como o segundo produto de exportação, gerando cerca de US$ 15 milhões entre janeiro e agosto de 2014. Apesar de continuar um dos principais produtos exportados pelo RN, a castanha-de-caju foi o produto que sofreu a maior variação negativa na pauta de exportações da fruticultura. Enquanto, de janeiro a maio de 2013, o estado acumulou US$ 13 milhões em produto exportado, no mesmo período de 2014, esse valor caiu para US$ 9,5 milhões; uma queda de 26%. A seca que impactou o estado de 2012 a 2014 é o principal fator apontado por especialistas para o resultado negativo.
No Piauí, a castanha-de-caju está entre o 10º e 15º lugar na pauta de exportação, gerando cerca de US$ 190 mil entre janeiro e agosto de 2014, valor 52% menor do que o obtido no mesmo período de 2013. Como vimos anteriormente, a seca prolongada vem prejudicando muito a cajucultura piauiense.

Custo de produção

Segundo o levantamento realizado pelo Agrianual (2014), no Município de Pacajus, CE, considerando 204 plantas por hectare e um módulo ideal de 10 ha, para as condições de cultivo intensivo (podas, pulverizações fitossanitárias, controle de plantas daninhas e adubação) em sequeiro, o custo total de implantação e manutenção do pomar durante o primeiro ano gira em torno de R$ 9.500,00. Já, nos anos seguintes, o custo total gira em torno de R$ 4.000,00 a R$ 6.000,00. As receitas iniciam no terceiro ano após o plantio, esperando-se produtividades de 750 kg ha-1 de castanhas e 7.500 kg ha-1 de pedúnculos. A partir do quarto ano, com produtividades médias de pelo menos 1.000 kg ha-1 de castanhas e 10.000 kg ha-1 de pedúnculos, segundo o levantamento, o produtor inicia a obtenção de resultados positivos, isto é, de lucro líquido, recuperando o investimento.
Por outro lado, sabe-se que, na implantação de um pomar, os gastos variam de acordo com o nível tecnológico adotado.
No perfil de baixo nível tecnológico, a mão de obra utilizada na implantação do pomar (preparo da área, marcação e abertura de covas, plantio, coroamento e poda) participa com aproximadamente 88% do gasto total (73 dias de serviço por hectare). Os serviços mecanizados (aração, gradagem e roçagem) participam com 9,5%. Por sua vez, os piquetes e as sementes participam com 2% e 0,5%, respectivamente.
Já no perfil de alto nível tecnológico (tecnologia recomendada pela Embrapa), a necessidade de mão de obra é de 88 dias de serviço por hectare. Esse aumento em relação ao perfil de baixo nível tecnológico é decorrente das práticas adicionais de adubação e de controle de pragas e doenças. Entretanto, a participação da mão de obra no gasto total com a implantação cai para 70%. Nesse perfil, as mudas enxertadas participam com 13%, os serviços mecanizados (aração, gradagem, roçagem e calagem), com 9%, os insumos (calcário, adubos, inseticidas, fungicidas e formicidas), com 7%, e os piquetes, com 1%.
Da mesma forma que na implantação, a composição dos gastos envolvidos na manutenção de um pomar de cajueiro varia bastante com o perfil tecnológico. Entretanto, em qualquer perfil, a mão de obra é o principal componente do gasto total.
No perfil de baixo nível tecnológico, a mão de obra utilizada na manutenção do pomar (coroamento e poda) participa com aproximadamente 69% do gasto total (seis dias de serviço por hectare). Já os serviços mecanizados (roçagem) participam com 31%.
No perfil de alto nível tecnológico, a necessidade de mão de obra passa para 14 dias de serviço por hectare. Esse aumento absoluto em relação ao perfil de baixo nível tecnológico é também decorrente das práticas adicionais de adubação e de controle de pragas e doenças. Entretanto, em termos relativos, a participação da mão de obra no gasto total com a manutenção cai para 48%. Nesse perfil, os insumos (calcário, adubos, inseticidas, fungicidas e formicidas) participam com 34%, e os serviços mecanizados (roçagem e calagem), com 18%.
Com relação à viabilidade econômica, conforme já salientado, há uma grande diversidade de perfis tecnológicos, sendo que geralmente o maior aproveitamento comercial do caju (castanha-de-caju, pedúnculo do caju e caju para consumo in natura) varia com o nível tecnológico utilizado e a estratégia de inserção no mercado. Nessas condições, torna-se difícil indicar viabilidades econômicas dos perfis existentes; no entanto, podem-se considerar as seguintes afirmações:
a) Independentemente do nível tecnológico, com o aproveitamento comercial somente da castanha-de-caju, apenas os pequenos produtores familiares com a produção do pomar já estabilizada obtêm uma receita ou excedente econômico positivo. Com a necessidade de mão de obra sendo suprida pela família, os desembolsos financeiros para a manutenção do pomar são fortemente atenuados. No entanto, é importante advertir que o excedente gerado para a família não possibilita sustentabilidade econômica, mediante a realização de novos investimentos.
b) Para pequenos produtores familiares e, sobretudo, para produtores patronais (que pagam pela mão de obra) apresentarem sustentabilidade econômica, é necessário utilizarem um alto nível tecnológico que lhes possibilite otimizar o aproveitamento comercial da castanha-de-caju, do pedúnculo do caju e/ou do caju para consumo in natura.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cultura do Mirtilo - Blueberry (Parte 3)



Doenças fúngicas
Introdução
A cultura do mirtilo (Vaccinium ashei) vem ganhando destaque como mais uma boa alternativa de renda para a agricultura familiar e empresarial na região Sul do Rio Grande do Sul. A introdução e o cultivo dessas culturas são recentes, mas apresentam um grande potencial de crescimento na região, e também em outras localidades do Estado, despertando muito o interesse dos agricultores que buscam novas alternativas agrícolas. Apesar disso, ainda os estudos sobre as doenças que ocorrem nessa cultura é muito incipiente, tornando necessários trabalhos de levantamento e monitoramento dos problemas fitossanitários, que podem ou poderão causar perdas na produção dessas fruteiras. A melhor estratégia de controle de pragas e doenças está na prevenção, evitando a sua introdução em uma área indene. Como a cultura de mirtilo ainda é pouco difundida no Brasil, o trabalho de prevenção de doenças se torna mais fácil, principalmente daquelas que são disseminados através de material propagativo. O uso do método preventivo contribui muito no controle de doenças, reduzindo o seu custo de produção e os danos por eles causados, aumentando a qualidade do produto final, tanto do ponto de vista visual, como de sabor, além da redução da dependência da aplicação de agrotóxicos, que muitas vezes são necessárias para solucionar os problemas fitossanitários.
Devido aos fatores acima citados, são importantes os estudos sobre as doenças que ocorrem em mirtilo. Durante os anos de 2004 e 2005 foram feitos levantamentos de doenças que ocorrem em mirtilo do Banco de Germoplasma e em unidades demonstrativas de produção que estão sendo instaladas na região Sul do Rio Grande do Sul. A presente publicação relata os fungos que foram encontrados associados à cultura do mirtilo nesse trabalho.
Fungos encontrados em mirtilo
Os principais gêneros de fungos constatados com maior freqüência no trabalho de levantamento realizado nos anos de 2004 a 2005 estão relacionados na Tabela 1. Para esse trabalho foram feitos o diagnóstico direto do material coletado, com suspeita de dano causado por fitopatógeno, ou por posterior isolamento em meio de cultura de BDA. Entre eles, o único que foi detectado, mas que provelmente não causa danos ao mirtilo é o Trichoderma, já que este gênero de fungo está mais associado ao controle biológico de outros fungos fitopatogênicos e é normalmente encontrado na superfície de plantas. Os outros fungos são considerados patógenos de plantas, portanto com potencial para causar danos em mirtilo.
O fungo Pestalotia foi encontrado associado à ramos com necrose superficial. É mais comum em ramos que são usados para estaquia, principalmente quando há uma demora no seu enraizamento, chegando a secá-lo internamente. Ele é descrito com um patógeno secundário (Caruso & Ramsdell, 1995) de frutos nos EUA. Aparentemente em plantas com bom vigor este fungo não seria importante como fitopatógeno.
Associado às flores de mirtilo foram constatados fungos do gênero Botrytis e Trichoderma, mas só o primeiro é importante. A espécie deve ser B. cinerea, fungo que é comum também em outras culturas no Brasil. É considerada uma doença importante no mirtilo, causando sérios prejuízos, pois afeta ramos, flores e frutos (Caruso & Ramsdell, 1995). No presente trabalho foi constatado a ocorrência de Botrytis em flores e ramos de mirtilo (Fig. 2). Devido aos danos que B. cinerea causa em mirtilo, é recomendado o controle preventivo com fungicidas na época da florada e frutificação até a colheita (Yang et al., 2005). Frutos de mirtilo apresentaram doenças causadas por fungos do gênero Colletotrichum e
Aspergillus. Segundo Caruso & Ramsdell (1995), o primeiro é um patógeno primário e o segundo secundário. O Colletotrichum ataca frutos maduros causando o apodrecimento e formando sobre ele acérvulos com esporulação aralanjada, pode afetar ramos também (Michigan State University, 2006). É recomendado eliminação de ramos doentes, podas para melhor aeração da planta, cultivares resistentes e uso de fungicidas na época do florescimento até a pré-colheita. O Aspergillus causa necrose em frutos maduros.
O fungo Sclerotium rolfsii foi encontrado em plantas que tinham aproximadamente um ano e apresentavam necrose na região do colo, o que provavelmente resultou em sintomas de amarelecimento, murcha e posterior morte de plantas. A presença de esclerócios arredondados, semelhantes às sementes de brássicas que indica a infecção da planta por esse fungo. S. rolfsii causa anelamento do colo da planta, o que resulta nos sintomas acima descritos. Esse fungo é muito comum em locais que acumula muita umidade e matéria orgânica e condições de alta temperatura, portanto é importante evitar que isso aconteça. Phytophthora foi detectado em plantas que apresentavam folhas avermelhadas, queda de folhas, causando posteriormente desfolha total e morte de plantas (Fig. 4). A região do colo da planta apresenta um anelamento e a parte interna do tronco e caule próximo a essa região está necrosada, conforme está ilustrado na Figura 4. A espécie de Phytophthora que é relatada como causadora do sintoma acima descrito é P. cinnamomi
(Caruso & Ramsdell, 1995). Solos encharcados, uso de serragem mal curtida, excesso de nitrogênio favorecem o ataque por Phytophthora (Pscheidt, 2005). Segundo este mesmo autor, além do manejo cultural evitando criar condições favoráveis para o estabelecimento do fungo, quando necessário é recomendado o uso de produtos químicos a base de metalaxil, fosetil-Al ou fosfito na folha e no solo.
Conservação pós-colheita
Durante o armazenamento de frutos ocorrem uma série de alterações químicas e físicas, as quais diminuem a qualidade, conduzindo à senescência e morte dos mesmos. Estas mudanças se devem a que os frutos são produtos que, depois de colhidos, continuam vivos, com as funções ativas do metabolismo vegetal, como respiração e transpiração. As alterações podem ser devidas a:
Processos físicos
Em frutos, o processo físico mais importante está relacionado com a transpiração.
Denomina-se transpiração, a perda de água em forma de vapor pelos tecidos. Ocorre porque os frutos contêm entre 85 a 90% de água na sua constituição, isto equivale a uma pressão de vapor interna de água equivalente a 9% de umidade relativa (UR). Assim, se evaporará água desde o interior do fruto até a atmosfera, sempre que a umidade da câmara seja menor que a do fruto. Esta é a principal causa da perda de peso dos frutos durante a pós-colheita. Perdas de peso acima de 3-5% resultam numa aparência pouco atrativa, reduzindo o valor comercial e a qualidade do produto. Existem fatores que condicionam a perda de água. Entre estes se destacam os ambientais (temperatura, umidade relativa, déficit de pressão de vapor do ar e pressão atmosférica) e os biológicos (tamanho, presença de ceras naturais na superfície, espessura da cutícula, danos na superfície, estado de maturação, etc.). Como medida de prevenção para diminuir a perda de água recomenda-se baixar a temperatura, aumentar a umidade relativa e revestir os frutos (modificação da atmosfera com ceras, filmes poliméricos, etc.).
Processos químicos e bioquímicos
O principal processo é a respiração (degradação oxidativa de produtos mais complexos presentes na célula, tais como amido, açúcares e ácidos orgânicos, em moléculas mais simples como dióxido de carbono e água, com liberação de energia). Os frutos após a colheita respiram continuamente, utilizando as reservas armazenadas, consumindo oxigênio e desprendendo gás carbônico. A ausência de respiração pode ser considerada a principal forma de diferenciar a conservação de frutos processados dos frutos in natura. Mais taxas respiratórias significam mais rápida deterioração. Os frutos, segundo o padrão respiratório, são classificados em climatéricos - onde a produção de CO2 e o consumo de O2 diminuem antes da colheita, durante certo tempo, para logo aumentar rapidamente, até um máximo, e, sem seguida diminuir, provocando a morte do fruto; não climatéricos – a taxa respiratória do fruto diminui gradativamente, desde a colheita até que o fruto atinja o estágio final de senescência. A taxa respiratória aumenta à medida que se incrementa a temperatura. De modo geral, quando a temperatura aumenta em 10ºC, a intensidade respiratória aumenta, em média, de duas a três vezes. Acima de 35ºC a intensidade respiratória diminui devido ao um bloqueio no sistema enzimático.
Ação de microrganismos
Fungos e bactérias são os microorganismos mais importantes como agentes causadores de doenças que surgem após a colheita e durante o armazenamento, constituindo-se num dos principais fatores de perdas qualitativas e quantitativas dos frutos. Podem, ainda, infectar os frutos no pomar, e se desenvolverem durante a conservação, ou promover a infecção na própria frigoconservação, em casos de falta de higienização dos equipamentos utilizados para classificação, das embalagens de colheita e das câmaras frias.
Fatores que condicionam a conservação pós-colheita
Considerando os frutos como elementos resultantes da produção agrícola, é evidente que fatores de campo (pré-colheita) tenham influência fundamental na conservação pós- colheita, sendo estes de extrema importância para que o produto apresente potencialidade máxima de armazenamento. Podem ser divididos em:
Fatores do pomar
Grau de maturação do fruto na colheita O grau ótimo de maturação do fruto no momento da colheita é de fundamental importância, pois influencia diretamente na palatabilidade e conseqüente aceitação pelo consumidor, como também o máximo tempo de armazenamento. Assim, frutos colhidos imaturos, ainda que receba manejo adequado de pós-colheita, possuem qualidade comercial e apresentação inferior àquele colhido com grau ótimo de maturação.
Recomenda-se, independentemente da cultivar, que os frutos apresentem as seguintes características químicas e físicas na colheita (Tabela 7).
Tabela 1. Característica físico-químico de frutos de mirtilo.
Características Valor médio
Acidez total titulável (AT)
Fonte: Embrapa Clima Temperado
Colheita Durante todo o processo de colheita, é importante o manejo cuidadoso do fruto. Assim, pequenos danos no fruto, constituem-se em problemas graves durante o armazenamento, pois ferimentos que rompam a casca dos frutos, facilitam o ataque de fungos e aumentam a perda de água, diminuindo a qualidade comercial dos mesmos. Portanto, são necessários alguns cuidados básicos tais como;
- Não provocar qualquer tipo de dano mecânico ao fruto, seja por choque com embalagens, utilização de ferramentas, queda de frutos no chão, colhedores com unhas muito compridas; - Realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, colocando as frutas em local protegido do sol (Figura 60); - Não realizar a colheita logo após a ocorrência de chuvas fortes;
- Procurar colher os frutos com o mesmo grau de coloração (frutos com azul intenso uniforme) (Figura 61); - Colher os frutos diretamente na embalagem de comercialização (Figura 62); e
- Não realizar o empilhamento excessivo de caixas. Dependendo da cultivar, a colheita poderá ser realizada em cinco ou seis vezes (repassadas), uma vez que a maturação dos frutos ocorre de modo desuniforme.
Observação: Um bom colhedor (com experiência) colhe cerca de 14,0 kg de mirtilos por dia.
Fig. 1 Estrutura de sombrite, no interior de uma plantação de mirtilo, utilizada para colocar embalagens de colheita.

Fig. 2 A = Mirtilos colhidos no estádio em maturação adequada (epiderme azul uniforme). B = Mirtilos em diferentes estágios de maturação.

Fig. 3 Embalagens utilizadas para comercialização de mirtilos.

Pré-resfriamento
Consiste em uma rápida eliminação do calor ? ?que o fruto possui ao ser colhido. Este processo é realizado antes do armazenamento definitivo do fruto. O objetivo é reduzir rapidamente os processos de respiração e transpiração, constituindo-se na primeira etapa da cadeia de frio. No entanto, para que seja eficaz, deve ser realizado em tempo mínimo (cerca de 4 horas após a colheita). Normalmente, se busca reduzir a temperatura do produto para o mais próximo possível da temperatura de armazenamento, geralmente em torno de 4ºC.
Duas considerações são essenciais para a aplicação desta técnica: a) O período de tempo entre a colheita e o pré-resfriamento do fruto deve ser o menor possível, respeitando, logicamente, as questões de logística. b) A velocidade de pré-resfriamento deve ser a maior possível. Quanto mais rápido se baixa a temperatura de polpa dos frutos, melhores serão os resultados obtidos. A maior ou menor velocidade de esfriamento obtida dependerá de fatores como: sistemas utilizados, tamanho do fruto, facilidade de penetração do meio refrigerante no produto, diferença de temperatura entre o produto e o meio, tipo de refrigerante e sua velocidade de circulação e tipo de embalagem. São recomendados, em geral, dois tipos de sistemas de pré-resfriamento para mirtilos: a) Por água fria ou “hidrocooling" Os frutos são submetidos a imersão em água fria (1- 2ºC) ou transportadas e tratadas através de um túnel onde estão localizadas duchas ou jatos de água. Neste sistema, a transferência de calor é rápida e homogênea e a perda de peso é praticamente nula.
Observação: a água deve ser renovada e desinfestada periodicamente, para evitar problemas fitossanitários por contaminação da água por fungos. b) Por circulação de ar frio ou “forced air cooling”: Neste sistema, o ar frio entra em contato direto com o fruto, proporcionando seu resfriamento. A eficiência deste método dependerá da qualidade de transferência de calor entre ar, embalagem e produto. O contato do ar com o fruto deverá ser facilitado ao máximo. A vantagem deste sistema é que se pode aproveitar toda a infra-estrutura instalada (câmaras). Seu inconveniente é que pode produzir desidratação dos frutos. Para evitar isto, recomenda-se utilizar umidificadores nas câmaras. As alternativas para aplicar este método são:
a) Câmaras ou túnel de pré-refrigeração: a velocidade de circulação do ar poderá ser de 2-5 m/s no pré-resfriamento e de 0,25-0,50 m/s durante o armazenamento do produto.
b) Sistema de ar forçado (pressão de ar): Neste caso, o ar frio é forçado a passar através das embalagens dos frutos.
Armazenamento
Ambiente Os mirtilos são armazenados em condições ambientes (20-25ºC e 65-70% de UR). Geralmente, este tipo de armazenamento é realizado por produtores rurais que têm acesso a câmaras frias, seja de forma comunitária ou não. Os frutos são conservados, durante, no máximo, 10 dias (dependendo da cultivar).
Refrigerado O armazenamento de produtos em câmaras com circulação de ar resfriado, por meio de uma planta de refrigeração, é chamado, comumente, de armazenamento refrigerado. A refrigeração, no armazenamento, tem sido difundida e aplicada, prolongando a comercialização dos frutos. Nos frutos não climatéricos (mirtilo), essa prática simplesmente, acarreta uma diminuição na taxa de deterioração, enquanto que nos climatéricos retarda-se, também, o processo de amadurecimento. O abaixamento da temperatura serve também como complemento para outros métodos de conservação de frutos, tais como o controle ou a modificação da atmosfera, a irradiação e o uso de produtos químicos que, se utilizados isoladamente, muitas vezes não surtem efeitos satisfatórios.
Em atmosfera modificada O termo armazenamento em atmosfera modificada é utilizado quando a composição da atmosfera de armazenamento não é hermeticamente fechada, tal como a utilização de filmes plásticos, onde ocorrem as alterações da composição da atmosfera (oxigênio, nitrogênio, dióxido de carbono, etileno, etc.), voluntária ou involuntariamente. O armazenamento refrigerado (0ºC e 85-90% de UR) de mirtilos, associado à modificação da atmosfera pelo uso de PVC (Cloreto de Polivinila), perfurado e com espessura de 7µ, proporciona a conservação os frutos durante 14 e 30 dias para o consumo in natura e processamento, respectivamente.
Em atmosfera controlada A atmosfera controlada tem os mesmos princípios da modificada, porém difere quanto ao controle dos níveis de CO2 e O2 durante o armazenamento, onde estes devem ser constantemente monitorados e mantidos em valores toleráveis para cada espécie e cultivar. No Brasil, não são comuns relatos de pesquisa sobre o uso de atmosfera controlada na conservação pós-colheita de mirtilos. Ceponis & Cappellini (1985), ao armazenarem mirtilos durante 17 dias (14 dias a 2ºC, mais três dias a 21ºC), com o uso de atmosfera controlada (20% de CO2 e 2% de O2), obtiveram frutos com excelente qualidade comercial, além da redução em 14% na deterioração dos frutos devido, à incidência de doenças fúngicas.
Aspectos econômicos do mirtilo
Por envolver consumidores de diversos segmentos econômicos, o mirtilo atinge valores interessantes no mercado externo, representando uma boa alternativa para a cadeia produtiva de regiões ainda com pouca tradição na sua comercialização, como a América do Sul. Dados registrados pela Organização Mundial de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) indicam que nos últimos 40 anos a produção mundial de mirtilo aumentou 7 vezes. No mesmo período, a área cultivada teve um acréscimo ao redor de 15 vezes. Nos últimos 1 anos, esses números praticamente duplicaram, passando de 105 mil toneladas em 1992 para 207 mil toneladas em 2002. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais a aumentarem a oferta do fruto, somado a novos empreendedores, entre eles o Chile, a Argentina e, mais recentemente, o Brasil. Os Estados Unidos detêm
50% da produção mundial do fruto, seguidos pelo Canadá, com 3%, e pelo continente europeu com 16%, cabendo ao restante do mundo apenas 1% de participação no volume produzido em 2002. É também nos Estados Unidos onde se encontram os maiores índices de consumo. Os norte-americanos importam cerca de 82% da produção do restante do mundo. Embora seja o maior produtor de mirtilo, o país não é autosuficiente e, exceto nos meses de maio, junho e julho (período de safra), depende diretamente do abastecimento canadense, chileno, neozelandês e argentino. O crescente interesse dos consumidores norte-americanos, europeus e asiáticos tem pressionado os tradicionais produtores mundiais e os novos empreendedores a aumentar a oferta do fruto, entre eles o Chie, a Argentina e, mais recentemente, Uruguai e Brasil. Quanto aos países da América do Sul, cabe destacar a participação do Chile, que produz cerca de 7.500 t/ano, sendo o representante deste grupo que mais produz e mais exporta para o mercado norte-americano, concentrando seu abastecimento entre os meses de janeiro e abril. Outro país que merece destaque é a Argentina, que ingressou no mercado externo de mirtilo há pouco tempo, mas já apresenta números relevantes no abastecimento mundial da fruta. A primeira exportação argentina ocorreu em 1994 para o Reino Unido, mas somente em 1997 o país começou sua incursão pelo mercado norteamericano. Produzindo hoje cerca de 380 t/ano, 74% dessa produção é destinada ao abastecimento dos Estados Unidos entre os meses de outubro e dezembro. O quadro produtivo atual, no Brasil, está estimado em cerca de 60 toneladas, concentradas nas cidades de Vacaria e Lavras do Sul no Rio Grande do Sul, e Campos do Jordão em São Paulo, totalizando uma área de 12 ha em produção comercial. Para o ano de 2004, projeta-se um incremento de 15 ha de área plantada, o que poderá praticamente duplicar a produção. Para os próximos cinco anos, a empresa Nice Blueberries na cidade de Itá (RS) projeta aumentar a área explorada em 100 ha o que, definitivamente deixa claro o interesse brasileiro em inserir-se neste promissor mercado. Segundo dados do Instituto
Brasileiro de Fruticultura (IBRAF), em 2002 o Brasil exportou cerca de uatro toneladas de mirtilo, o que representou uma receita de US$ 24.0,0 aos produtores e divisas para o Brasil. Trata-se de um número pouco significativo, face ao potencial natural que o País oferece para a produção comercial. Porém, em vista das previsões otimistas, novos investidores surgirão, preenchendo a fatia do mercado interno, ainda não explorado com o produto nacional e, principalmente, o mercado internacional, facilitado pela política cambial ora praticada no Brasil.
Coeficientes de produção
A cultura do mirtilo explorada com fins comerciais, no Brasil, é recente e carece de informações econômicas, capazes de registro, como custo de produção, vida útil de um pomar, produtividade média durante a vida útil, etc. Na Tabela 8 discriminam-se as operações que compõem o sistema de produção explorado comercialmente no País e seus coeficientes técnicos.
Tabela 1. Coeficientes técnicos para a produção de Mirtilo (por hectare)
Quantidade Especificação Unidade Implantação Produção
1. Insumos
Mudas muda 2.200 -- Sulfato de amônia kg -- 200
Sulfato de potássio kg 150 -- Superfosfato triplo kg 216 60*
Mangueira (irrigação por gotejo)** m 3.300 --
Formicida kg 4 --
2. Preparo do solo e plantio
Roçada mecânica (3x) H/M 0,5 0,5 Aração mecânica (1x) H/M 0,5 -- Gradagem mecânica H/M 0,5 --
3. Tratos culturais
Marcação e nivelamento D/H 2 -- Coveamento e plantio D/H 3 -- Capina mecânica (3x) D/H 1 1 Capina manual (3x) D/H 3 3
Aplicação de adubo (cobertura) D/H 3 6 Aplicação de formicida D/H 2 2
Poda verde D/H 2 4
Poda de inverno D/H -- 5
4. Colheita (***)
Irrigação D/H 10 15 Colheita manual D/H -- 15
Transporte interno D/H 10 40 Embalagem D/H -- 20
(*) Dependendo da análise foliar (**) Moto bomba 3 a 5 cv/uma mangueira de 2"
(***) 3 t/ha no primeiro ano de produção; 6 t/ha nos anos seguintes. 

Devido a postagem ser muito extensa, dividiremos a mesma em três partes, deixando os links para as outras partes logo publicaremos.

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Cultura do Mirtilo - Blueberry (Parte 2)



Nutrição e adubação para o mirtilo
Solos
As plantas de mirtilo necessitam de solos com características especiais para apresentar um bom crescimento e produção. Devido a sua distinta exigência nutricional, muitas práticas de adubação que são comuns à maioria das espécies frutíferas não são indicadas para o mirtilo. Para que apresente boas produções, o mirtilo deve ser cultivado em solos muito ácidos, com pH em água entre 4 e 5,5, arenosos, franco-arenosos ou argilosos não muito profundos e de baixa fertilidade. Em geral, devido à elevada exigência de água e de oxigenação das raízes, o solo deve apresentar uma boa drenagem, grande retenção de água e ser bastante poroso. A faixa de pH mais indicada vai de 4,5 a 5,0. Quando o solo apresentar um valor mais elevado que 5,5, o mesmo poderá ser usado para o cultivo do mirtilo, desde que as demais práticas agrícolas estejam otimizadas. Nesse caso, é recomendada a aplicação de enxofre elementar ao solo, com a finalidade de abaixar o pH e, assim, oferecer melhores condições de desenvolvimento das plantas. No entanto, quando este valor se situa acima de 6,0, o abaixamento do pH é difícil e muito oneroso, sendo desaconselhado seu uso para o cultivo comercial do mirtilo. Vários produtores observaram que essa espécie pode ser cultivada, sem problemas aparentes, em solo com pH próximo a 6,0, desde que o mesmo seja rico em matéria orgânica.
O mirtilo apresenta um sistema radicular muito superficial, sendo as raízes muito finas, e sem pêlos radiculares. É muito sensível à compactação e a má drenagem do solo. Por isto devem ser evitados os solos de textura argilosa, dando-se preferência aos bem arejados, que incluem desde os arenosos até os franco-arenosos. Com o objetivo de aumentar a porosidade do solo, é recomendável o uso de matéria orgânica. Do mesmo modo que a aeração, a manutenção de uma adequada umidade no solo é muito importante. Sob condições de déficit hídrico na planta, o mirtilo é uma das poucas frutíferas em que há extração de água dos frutos. Quando isto acontece no final do ciclo vegetativo anual, pode haver menor indução de gemas florais, enquanto que, se ocorrer durante o ciclo, afeta negativamente o crescimento vegetativo. O encharcamento do solo, mesmo que por curtos períodos, em qualquer época do ano, pode ocasionar sérios prejuízos às plantas. O uso de irrigação e a adição de matéria orgânica ao solo são importantes elementos para a obtenção de sucesso. O aumento do teor de matéria orgânica do solo pode ser feito de várias maneiras. Uma delas é por meio do cultivo de coberturas vegetais incorporados ao solo. Pode-se atingir, também, este objetivo por meio da aplicação de estercos ou de compostos ao solo. Como o processo de aumento do teor de matéria orgânica do solo é lento, recomenda-se que seja iniciado, no mínimo, dois anos antes da instalação do pomar. Quando cultivado em climas úmidos e frios, poderão ser usados solos com menor profundidade. Ao contrário, quando cultivado em locais quentes e secos e se o solo não for muito profundo, as plantas poderão morrer. Durante o verão, é importante que se mantenha o solo úmido superficialmente. Naqueles que apresentem água muito próxima à superfície deve-se confeccionar drenos para eliminar rapidamente o excesso de água. Assim, quando a água é mal manejada, as plantas podem apresentar um pequeno crescimento, com escassa produção de frutas, excesso de ramos secos, levando as plantas à morte. Somente durante o inverno é que o mirtilo suporta o encharcamento do solo. O máximo crescimento do mirtilo, tanto cultivado em areia, como em solução nutritiva, é obtido com o uso de cerca da metade da concentração de nutrientes usado para as demais espécies frutíferas. As plantas jovens são mais sujeitas a graves danos causados pelo uso de doses excessivas de fertilizantes. O fato do sistema radicular ser muito superficial e a ausência de pêlos radiculares, provavelmente contribuem para esta suscetibilidade. Assim, se recomenda o uso de fertilizantes somente em pomares estabelecidos e brotados, devendo os mesmos serem aplicados a uma distância de 30 a
45cm do tronco.
Importância dos nutrientes
A extração anual de macronutrientes por uma planta adulta de mirtilo ocorre na seguinte ordem: nitrogênio > cálcio > potássio > fósforo > magnésio. Com relação ao teor foliar de nutrientes, da brotação até a colheita, observa-se uma variação decrescente para o nitrogênio, fósforo e potássio e crescente para o cálcio e magnésio.
Quando a observação das folhas revela características diferentes do normal, pode se suspeitar de uma deficiência nutricional. Tais padrões são mais ou menos específicos para cada nutriente. No entanto, os sintomas carenciais variam de acordo com a espécie, cultivar e fatores ambientais. Lamentavelmente, não são ainda conhecidos os sintomas carenciais para todos os nutrientes e culturas. Por vezes, acontece que os sintomas visuais de dois nutrientes são idênticos. Sintomas visuais de deficiência e de toxidez são muito úteis no diagnóstico de problemas específicos, embora um diagnóstico preciso pode ser dificultado já que sintomas similares podem ser ocasionados por uma série de estresses ( por exemplo, água, herbicidas, nutrientes, etc ). Quando os sintomas são bem conhecidos, esse método de diagnose nutricional, sem dúvida, é o mais rápido, fácil e barato que se conhece.
Não se recomenda basear o programa de adubação somente na sintomatologia foliar e na aparência dos arbustos, já que a ocorrência de sintomas indica uma severa restrição no fornecimento de nutrientes, estando tanto o crescimento das plantas, como a produção e a qualidade dos frutos seriamente comprometidos. Em cultivos de mirtilo raramente se observam sintomas de deficiência de cálcio, enxofre, cobre, manganês e de zinco.
Com o objetivo de auxiliar os produtores de mirtilo, a seguir, são descritos os sintomas visuais de carência dos nutrientes que ocorrem com mais freqüência.
Nitrogênio
É o elemento exigido em maiores quantidades, sendo, provavelmente, a primeira causa de surgimento de clorose nas folhas, por ser um dos componentes da molécula de clorofila. Em muitas situações é o único nutriente cuja aplicação é necessária. A deficiência de nitrogênio se caracteriza pela presença de folhas uniformemente cloróticas, sem mosqueados ou manchas, podendo ocorrer em qualquer época do ano. As folhas mais velhas localizadas na base dos ramos desenvolvem os sintomas antes que as mais novas, devido à alta mobilidade deste nutriente na planta. Se a deficiência se agravar, todas as folhas tornam-se cloróticas, podendo ficar avermelhadas e acarretar uma desfolha prematura das plantas. Quando o suprimento de N é reduzido, as plantas crescem menos, o tamanho dos frutos é menor e há uma menor formação de gemas florais. Deve-se ter cuidado para não se aplicar quantidades além do necessário, pois o excesso ocasiona um vigoroso crescimento, produzindo muitos ramos com folhas grandes e com coloração verde escuro. Plantas que apresentam pequeno crescimento, devido ao estress de água ou por outro motivo, também apresentam maiores teores foliares de N. 

Fósforo
A sintomatologia carencial de fósforo não é comum de ocorrer em plantas mantidas a campo. Plantas deficientes neste elemento tem o crescimento paralisado, com as folhas pequenas e com coloração de verde escuro à púrpura, principalmente nas margens e nas pontas. Até o momento não foram observados sintomas devido ao excesso de P. No entanto, teores muito altos de P podem induzir clorose férrica, devido a inibição na absorção do ferro.
Potássio
As folhas de mirtilo com sintomas de deficiência de potássio apresentam as bordas queimadas, enroladas e com pontos necróticos. Normalmente, a deficiência se manifesta primeiramente nas folhas mais velhas. A deficiência de potássio ocorre com mais freqüência em solos arenosos. As folhas mais novas, localizadas próximas ao topo dos ramos, podem desenvolver uma clorose internerval, semelhante àquela causada pelo ferro.
Magnésio
Os sintomas de deficiência começam a surgir nas folhas mais velhas, localizadas nos ramos novos. A região internerval apresenta clorose ou fica com coloração vermelho vivo, enquanto que as nervuras permanecem verdes. As folhas mais novas e os ponteiros raramente apresentam sintomas.
Ferro
De modo geral, a disponibilidade dos micronutrientes é função do pH do solo. Quando este é alto, os micronutrientes ficam indisponíveis. Após o nitrogênio, o ferro é o nutriente que apresenta sintomatologia carencial com mais freqüência. A deficiência faz com que o tecido entre as nervuras apresente coloração verde claro ou amarelo bronze.
Difere dos sintomas de deficiência de magnésio, já que em casos de deficiência devida ao ferro as nervuras principais e as secundárias permanecem verdes. Normalmente, os sintomas aparecem primeiro nas folhas mais novas. Nas plantas com carência deste nutriente, o crescimento dos ramos e o tamanho das folhas são menores.
Recomendações de adubação fosfatada e potássica de pré-plantio Amostragem do solo
As amostras de solo podem ser coletadas em qualquer época do ano. No entanto, para que o produtor tenha conhecimento do pH do solo e da necessidade de fertilizantes, em tempo hábil, esta deverá ser realizada, no mínimo, quatro meses antes do plantio das mudas e deverá ser representativa da área. Para tanto, é necessária a coleta de várias subamostras, em diversos pontos de uma mesma área homogênea. O primeiro passo para se proceder a amostragem do solo consiste em dividir a área em porções homogêneas, considerando-se o tipo de solo, a topografia, a textura, a cor, o grau de erosão, a profundidade, a cobertura vegetal, a drenagem, entre outros aspectos. No entanto, se uma área for homogênea quanto a todos os fatores acima citados, existindo, entretanto, uma porção já adubada esta deverá ser amostrada em separado. A área abrangida por cada amostra é função da homogeneidade do solo. Normalmente, o número de subamostras se situa ao redor de 10 a 15. Na tomada de amostra pelo sistema de amostragem composta, cada área deve ser toda percorrida, caminhando-se em ziguezague e coletando-se, ao acaso, subamostras que, após, são reunidas, e homogeneizadas, retirando-se cerca de 500g de solo para serem enviados ao laboratório. Os procedimentos de amostragem do solo são os recomendados pela Comissão de Química e Fertilidade do Solo - RS/SC (Sociedade, 2004). Como o sistema radicular do mirtilo é muito superficial, deve-se amostrar a camada arável do solo, ou seja, de 17 a 20 cm de profundidade.
Acidificação do solo
Ao se usar enxofre com o propósito de reduzir o pH, o mesmo deverá ser espalhado na superfície do solo (Figura 49), no mínimo com um ano de antecedência e, a seguir incorporado, já que o processo de acidificação é muito lento. Aconselha-se que antes do plantio o pH do solo seja verificado. Se por acaso o valor desejado não for atingido, quantidades adicionais deverão ser aplicadas. Não se tem informações da quantidade de enxofre necessária para abaixar o pH dos nossos solos até determinado valor. No entanto, sabe-se que esta quantidade é dependente da textura do solo, do teor de matéria orgânica, do pH que se deseja atingir e do pH inicial. Assim, relativamente pequenas quantidades são necessárias em solos arenosos, enquanto que nos argilosos e/ou nos ricos em matéria orgânica a necessidade é bem mais elevada. A redução forçada do pH do solo pode trazer consigo a solubilização de alguns micronutrientes e, em conseqüência, se encontrar altos teores nas folhas, os quais nem sempre estão associados com fitotoxidez. O enxofre não deverá ser usado, com este objetivo, em pomares já implantados.
Antes da instalação do pomar, a análise de solo é o único método de diagnose disponível para se estimar as necessidades de fósforo (P) e de potássio (K). As quantidades necessárias de P e de K são determinadas na mesma amostra de solo usada para se avaliar o pH.. Os adubos fosfatados e potássicos, usados antes do plantio, devem ser aplicados em toda a área, por ocasião da instalação do pomar, preferentemente a lanço, e incorporados até 20 cm de profundidade. A interpretação dos teores de P e de K extraíveis, adotada pela Rede Oficial de Laboratórios de Análise de Solo e de Tecido Vegetal - ROLAS - RS e SC é apresentada, respectivamente, nas Tabelas 2 e 3. Os valores de P e K extraíveis do solo são interpretados em cinco faixas. Com relação ao P extraível, foram estabelecidas quatro classes de solos, conforme o teor de argila do solo (Tabela 2). Para o K extraível foram estabelecidas três classes de solos, conforme o valor da CTC (capacidade de troca de cátions a pH 7) (Tabela 3).
Tabela 1. Interpretação dos resultados de análise de solo para fósforo "extraível" (Mehlich) mg/dm³ - para os solos e condições do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Classes de solo conforme o teor de argila¹ Interpretação 1 2 3 4
Tabela 2. Interpretação dos resultados de análise de solo para potássio “extraível” (Mehlich) para os solos e condições do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
CTCpH 7 ( cmolc/dm³)
Interpretação do teor de K no solo
As quantidades de P2O5 e de K2O recomendadas na adubação de pré-plantio para a cultura do mirtilo constam da Tabela 4.
Tabela 3. Recomendação de adubação fosfatada e potássica, de pré-plantio, para a cultura do mirtilo de acordo com a análise de P e de K no solo.
Interpretação do teor de P ou de K no solo Doses de fósforo (kg
Doses de potássio (kg K2O/ha)
Muito Baixo 90 90
Baixo 60 60 Médio 30 30 Alto 0 0 Muito Alto 0 0

Como o mirtilo é cultivado em solos extremamente ácidos, é recomendável que se utilizem os fosfatos naturais com fonte de fósforo. Como esta cultura é extremamente sensível ao cloreto, é recomendável o uso do sulfato de potássio como fonte de K.
Adubação de crescimento e de produção
Durante a fase de crescimento das plantas, que vai desde o plantio das mudas até o início da fase produtiva, recomenda-se usar somente nitrogênio. Supõe-se que o P e o K, fornecidos por intermédio da adubação de pré-plantio, sejam suficientes até o momento em que as plantas entrem em produção.
O nitrogênio não deve ser fornecido na forma de nitrato, já que tem se mostrado tóxico ao mirtilo. A forma preferida é a amoniacal, com a vantagem adicional de abaixar ou manter o pH baixo em pomares estabelecidos. Se o pH em água do solo for menor que 5,0 a uréia é a fonte de N mais indicada. Ao contrário, se for maior que este valor, deve ser usado o N amoniacal, com a vantagem de ser mais acidificante do solo que a uréia.
Como o mirtilo apresenta uma alta suscetibilidade à toxidez por fertilizantes, recomenda-se fracionar a dose anual em, pelo menos, duas parcelas. As doses recomendadas, bem como as épocas, constam na Tabela 5. O adubo nitrogenado deve ser distribuído ao redor das plantas, formando uma coroa distanciada de 30 a 40 cm do tronco. A primeira aplicação de fertilizante nitrogenado deve ser realizada por ocasião da abertura das gemas florais e a segunda deve coincidir com o período da plena floração. Se houver necessidade, realizar uma aplicação adicional de N, durante o período de desenvolvimento dos frutos. Isto pode ser evidenciado pela ocorrência de sintomatologia carencial específica, por meio da observação do crescimento das plantas ou através de análise foliar.
Quando for usado “mulch”, dobrar a quantidade de nitrogênio, com o objetivo de reduzir a relação C/N do material e, assim, acelerar sua decomposição. Visando, principalmente, melhorar a retenção de água pelo solo e aumentar sua porosidade, aplicar em toda área do pomar 16 a 24 t/ha de esterco de gado bovino ou 10 a 12 t/ha de esterco de galinha.
Tabela 4. Recomendação de adubação nitrogenada, de crescimento e de produção, para o mirtilo.
Doses de nitrogênio (g de N/planta) Ano
1ª aplicação 2ª aplicação
Quando as plantas estiverem em plena produção, os nutrientes e as quantidades a serem aplicadas devem resultar de uma análise conjunta dos seguintes parâmetros: análise foliar, análise periódica do solo, idade das plantas, crescimento vegetativo, adubações anteriores, produções obtidas e espaçamento.
O teor de N nas folhas deve ser mantido entre 1,80 e 2,10% para que se obtenha um ótimo crescimento e uma boa produção, com frutas de qualidade. O teor foliar de N, freqüentemente, é mais elevado em anos de produção elevada. Assim como ocorre com as demais fruteiras temperadas, a exigência do mirtilo em P é muito baixa, sendo suficiente a aplicação em pré-plantio. Uma nova aplicação somente deverá ser feita quando o teor foliar estiver abaixo de 0,08%. Quando o teor foliar de K estiver abaixo de 0,31%, é indicativo da necessidade de aplicação de K no solo. As frutas do mirtilo acumulam quantidades consideráveis de K, de modo que o teor foliar é sempre menor quando os arbustos têm grande quantidade de frutas e vice-versa. Assim, para a interpretação do estado nutricional das plantas em K deve-se considerar tanto o teor foliar como a carga de frutas.
Quando for recomendado o uso de adubos potássicos, estes devem ser aplicados ao solo em qualquer época do ciclo vegetativo.
Com o objetivo de se aumentar a eficiência do uso dos fertilizantes, recomenda-se aplicar os adubos quando o solo não estiver seco e incorporá-los logo após a aplicação, principalmente os nitrogenados.
Análise foliar
Metodologia de coleta de amostras de folhas Um programa de nutrição para pomares de mirtilo em produção deve ser baseado na análise foliar. Assim, à partir do 2º ou 3º ano a análise foliar é o indicador mais confiável na determinação da situação nutricional das plantas. Através dela é possível diagnosticar com precisão problemas nutricionais os quais são difíceis de serem identificados pela análise de solo ou pela observação das plantas. Como a análise foliar é um método preventivo, os produtores dispõem de ferramentas para identificar e corrigir problemas nutricionais ocultos, antes que o crescimento das plantas e a produção de frutos sejam comprometidos. Para a realização da análise foliar do mirtilo, devem ser colhidas folhas completas - lâmina foliar com o pecíolo - (Figura 50), na segunda quinzena de novembro. De cada dez arbustos, coletar cinco folhas plenamente desenvolvidas, localizadas no 5º ou 6º nó, contado a partir da extremidade dos ramos frutíferos jovens. Cada amostra deve ser composta de 80 a 100 folhas, podendo representar um grupo de plantas ou um pomar, conforme a homogeneidade. Em pomares com mais de 100 plantas, porém homogêneas, deve-se coletar quatro folhas por planta em 25 plantas distribuídas aleatoriamente e representativas da área. Cada amostra relaciona-se a uma condição nutricional. Assim, folhas com sintomas de deficiência nutricional não devem ser misturadas com folhas de plantas sadias. Cada amostra deve ser constituída de folhas de plantas adultas, da mesma idade e da mesma cultivar. As folhas que compõem a amostra devem estar livres de doenças e de danos causados por insetos, e não devem entrar em contato com embalagens usadas de defensivos, fertilizantes, etc. A amostra deve ser acondicionada em saco de papel pardo perfurado e enviada ao laboratório o mais rápido possível. Caso o tempo previsto para a chegada da amostra ao laboratório seja superior a dois dias, sugere-se fazer uma prévia secagem ao sol, sem retirar as folhas do saco, até que elas se tornem quebradiças. Se a análise foliar for realizada com o objetivo de esclarecer um problema nutricional, devem ser colhidas duas amostras, em qualquer época do ciclo vegetativo, sendo uma de plantas que apresentem os sintomas e uma outra de plantas aparentemente sadias.
Interpretação dos teores foliares de macro e de micronutrientes Para a interpretação dos resultados da análise foliar do mirtilo deve ser consultada a Tabela 6.
Tabela 5. Interpretação dos resultados de análise foliar do mirtilo. Macronutrientes(%) Faixa de interpretação N P K Ca Mg
Abaixo do normal 1,50 –
Acima do normal 2,1 –

Fig. 2 Folha completa, mostrando o pecíolo e a lâmina. Irrigação
Para que o pomar de mirtilo tenha um bom desenvolvimento, as plantas devem ter suas necessidades hídricas supridas adequadamente. A irrigação é um fator determinante para o crescimento e produção do mirtilo, pois em função das características do sistema radicular, superficial e de poucos pêlos radiculares, a capacidade de absorção é reduzida. Mingeau et al. (2001) verificaram, para variedades do grupo highbush, que o diâmetro de ramos é afetado pelo déficit hídrico principalmente na fase de crescimento vegetativo. Os autores verificaram ainda que o crescimento dos ramos é afetado principalmente em estiagens longas, visto que a planta possui capacidade de retomar as taxas de crescimento, quando cessado o período de estresse. Pode-se definir duas fases criticas em relação à disponibilidade de água no solo para a cultura: A primeira diz respeito à fase de implantação e formação do pomar. Nos dois primeiros anos, a prioridade é a formação de estrutura vegetativa (ramos) e principalmente do sistema radicular (pois é esta estrutura que será perene no pomar, em virtude de periodicamente os ramos serem podados e substituídos por novos lançamentos). Nesta fase, deve-se disponibilizar adequadamente água, especialmente nos períodos onde as chuvas são insuficientes para fornecimento adequado de água às plantas. A segunda fase critica diz respeito a produção de frutos. Conforme Mingeau et al. (2001), deficiência hídrica reduz a produção e o número de frutos. Se esta for moderada, ocorrida em qualquer fase fenológica da planta, a redução é próxima a 20%. Sob restrição severa, a redução pode ser de 31 a 49%, se ocorrer na fase de crescimento vegetativo ou maturação de frutos respectivamente. Esta redução é influenciada, principalmente, pela redução ao peso médio dos frutos (17% para restrição moderada e de 30% a 39% sob restrição severa ocorrida na floração ou no período vegetativo, respectivamente), visto que a queda de frutos, número de flores e frutos e formação deste não é afetada. Outra característica da espécie é que não apresenta boa resistência ou adaptação à terrenos encharcados, o que deve ser evitado por ocasião da implantação do pomar. Entre os tipos de cultivo, variedades do grupo highbush são mais sensíveis à falta de água no solo, enquanto as do grupo habitteye são mais tolerantes, porém também são afetadas por este fator. A cultura se adapta bem aos vários métodos de irrigação, desde os de superfície até os localizados (Figura 51 e 52), largamente utilizados nas regiões de maior plantio, como Argentina, Chile e Uruguai. Seu requerimento de água é variável conforme o desenvolvimento da planta e às condições do clima que determinam a demanda atmosférica por água. Mingeau et al. (2001) manejando a água próximo à capacidade de campo do solo atingiram as maiores produtividades. Holzapfel et al. (2004) trabalhando na Estação Experimental de Concepción, no Chile, avaliaram durante 7 anos dois sistemas de irrigação (gotejamento e microaspersão) e níveis de aplicação de água, na variedade Bluetta, e verificaram que a maior produção de frutos (10,3 t.ha-¹) foi obtida com a aplicação de 6.200 m³ .ha-¹ e que a produção foi crescente com o aumento de água até este volume, porém verificou que volumes maiores reduziam a produtividade. Deficiência hídrica em mirtilo também afeta a produtividade da próxima safra, ou seja, reduz o potencial produtivo do pomar para os próximos anos. Mingeau et al. (2001) verificaram que, apesar da planta reduzir o número de novos ramos, modificando a arquitetura da planta, a evapotranspiração não é influenciada. Por outro lado, os fatores de produção são afetados com a restrição hídrica. Forte estresse hídrico, ocorrido após a colheita, reduz o número de frutos em 43 % no próximo ciclo e 23% para estresse moderado. O tamanho dos frutos pode diminuir quase 60% para forte estresse e 21% para moderado. Quando a falta de água ocorre no período de crescimento do fruto, a redução da produção é de 27%.
Fig. 1 Irrigação superficial de mirtilo.
Fig. 2 Irrigação localizada através de tubo gotejador.
Devido a postagem ser muito extensa, dividiremos a mesma em três partes, deixando os links para as outras partes logo publicaremos.

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